Falta d’água preocupa Videirenses

Videira – Desde que foi municipalizado, há pouco mais de 70 dias, o abastecimento de água no município de Videira tem se configurado como principal desafio da administração municipal, que abraçou o sistema para combater uma escassez que era registrada nos bairros da cidade, exatamente o mesmo problema que hoje enfrenta, em maior monta, sem conseguir resultados que contentem a população.

Para retomar para si o fornecimento de água, o município simplesmente não renovou o contrato com a Casan, que explorou o sistema em forma de comodato nos últimos quarenta anos e deveria, neste período, ter investido na melhoria constante da rede, bem como implementado serviços de tratamento de esgoto. Os investimentos deixaram a desejar, o sistema se sucateou pelo tempo e o último simplesmente nunca existiu.

Formou-se então, a autarquia municipal de águas e saneamento, a Visan, que nasceu com a promessa de resolver definitivamente a problemática da falta de água no município, que antes também acontecia, mas em escala menor de duração e atingindo regiões pontuais. Seu primeiro ato foi decretar situação de emergência e calamidade pública no fornecimento aos videirenses.

Em ação seguinte, o Paço Municipal optou por terceirizar a obrigação de fornecimento de água para a empresa Atlantis, com dispensa de licitação, gastando R$ 3,4 milhões em um repasse questionável e que ainda poderá render dores de cabeça ao município. Questionável porque a situação de emergência e calamidade teria sido provocada pela própria Visan que, ao assumir o sistema, não dispunha de capacidade técnica para tal.

Sabendo disso, o município poderia ter se antecipado e, antes de romper o contrato com a Casan, preparado o terreno, aberto livre concorrência e tratado a questão com mais cautela. Após estes dois passos, que não foram calculados e aconteceram na medida que os dias passavam, o que se estabeleceu foi um pré-caos, com incisivas e constantes reclamações por parte de moradores de diversas localidades. Algumas nunca haviam enfrentado falta de água.

Com os problemas se acumulando e torneiras secas, os videirenses começaram questionar a troca da Casan pela Visan e, na medida em que os dias passam sua paciência esgota, chegando ao ponto de pedir o retorno da estatal e ser o município destaque negativo em nível estadual pela celeuma ocasionada. Se de um lado os consumidores estão no limite da paciência, de outro a Visan parece tratar com naturalidade todo esse processo.

A autarquia, constantemente, recorre a comunicados oficiais dando justificativas para os problemas e reportando ações, sem estipular data, apresentar cronograma ou planejamento para que a situação se normalize. Além disso, tem atribuído de forma rotineira a terceiros boa parte dos problemas que enfrenta para normalizar o abastecimento, como se isso lhe excluísse de culpa.

Na medida que o tempo passa, entretanto, a Visan vai tornando-se desacreditada da população e este é um dos primeiros indícios de que ela não está mais suportando a situação. O desafio, portanto, é grande e claro: colocar água na torneira dos videirenses em quantidade, qualidade e, principalmente, com a segurança de que não haverá desabastecimento. Porque o verão se avizinha e o consumo nele se expande.

Maltrapilha Casan

Quando assumiu o fornecimento de água, a Visan tratou logo de desqualificar sua antecessora, mostrando a quem quisesse ver o que taxou de incompetência e má gestão. Fotos circularam em dossiês e pelas redes sociais, desnudando a realidade de um sistema que ficou décadas legado às promessas. Pois bem: num primeiro momento esta ação surtiu efeito positivo para a autarquia, mas hoje já se esvaiu.

E se esvai pela simples constatação que o problema se agravou e falta confiança na capacidade da Visan em solucionar as demandas, já que hoje ela limita-se a agir pontualmente, trabalhando nos locais onde ocorrem os problemas, sem, teoricamente, estruturar a rede para o futuro que logo chega. A ação maledicente, então, virou-se para ela própria e, aliada à falta de paciência dos consumidores, já entoa-se o coro de “volta Casan”.

Prova disso e da revolta dos videirenses é que, nesta semana, uma conhecida e influente emissora de rádio da cidade realizou uma enquete em sua página no Facebook, questionando qual era a preferência dos seus ouvintes: Visan ou Casan. A maioria esmagadora votou na antiga autarquia. Contudo, a enquete foi retirada do ar pouco tempo depois. O resultado escancara o insatisfação da população.

A Casan não volta a não ser por determinação judicial caso a calamidade se agrave ou se estenda. Mas o simples fato de pedir seu retorno mostra o grau de descontentamento da população, já cansada de esperar pela água na torneira, que quando chega, na maioria dos casos, é fruto de caminhões-pipa contratados para tal finalidade e que entregam água nos quatro cantos do município.

Gritos por ajuda

As redes sociais tornaram-se a vitrine para os descontentes manifestarem-se contra a falta de água. Ela também virou um termômetro a medir quanto tempo ainda se tem para resolução do problema, que não é de fácil solução mas, quando assumiu, o município sabia disso, já que tinha uma pessoa lá dentro da estatal, trabalhando numa gestão compartilhada que pouco ou nada revelou sobre a situação da Casan, dada sua surpresa ao assumir.

Muitas vezes ignorado, o grito que vem pelas redes, é atribuído em restrito a um pequeno grupo, fruto da suposta matraquice de que sempre é do contra. Ledo engano. A internet é hoje a principal porta-voz da população e a maior demonstração disso foi a recente eleição, que fez desconhecidos recordistas de votos e catapultou gente ao patamar de mais votados.

Ignorar a opinião ali dada é virar as costas para a mais eficiente ferramenta de comunicação da atualidade e isso a Visan tem feito com maestria. Ignora solenemente quem brada pela água, faz que não existe quem clama pelo banho e simplesmente desconhece os que lhe informam sobre vazamentos, rupturas e outras situações. Alega que seu canal oficial é um telefone onde raramente a ligação se completa, dizem os relatos.

Ao que parece, a autarquia municipal não está preocupada com a opinião da população porque tem coisa mais importante a fazer. Justo, mas cada vez que ignora um pedido de água, ela joga contra os videirenses e, por isso mesmo, não pode esperar muito apoio quando lança seus já malfadados e desacreditados comunicados. Caso tivesse credibilidade, eles seriam pacificadores e acalmariam os ânimos.

Destaque negativo

Quando a atual administração assumiu o comando do município, uma de suas premissas mais efusivas era projetar Videira em nível estadual. Queria mostrar suas potencialidades, sua rica história e sua brava gente. Recentemente esta projeção se alcançou, mas de forma contrária, extremamente negativa e alocando ao governo municipal uma série de questionamentos.

A maior rede de televisão do Estado, mais uma vez, veiculou videirenses relatando o drama que vivem há quase três meses. Pela tela, viu-se torneiras secas, tanques sem utilidade e bocas sedentas. Relatos quase desesperados de quem trabalha o dia todo e, quando chega em casa não tem direito tomar um banho. Menos que isso, o acesso à água para fazer seu alimento.

Mostrou, a tão almejada tevê, a escola que teve que suspender as aulas, a senhorinha que não pode cozinhar e famílias inteiras vivendo como décadas atrás, recorrendo à busca de cumbucas de água para suprir suas mínimas necessidades. Mas, para a Visan, este retrato era de apenas 5% da população e, até dezembro, novas bombas e geradores serão instaladas, solucionando a questão.

O comentarista da emissora, em tom jocoso de abobamento provocado pela constatação, disparou contra a autarquia e contra a administração municipal, lhe chamando à responsabilidade e indicando procedimentos que, na sua visão, seriam os corretos para que os problemas fossem evitados. Entre eles, o que mais chamou atenção foi da falta de planejamento que, agora, se desnuda cada vez mais.

O que o videirense quer?

Água na torneira é a resposta. O que será feito para que ela chegue ele deixa nas mãos da autarquia, que ao assumir o sistema sabia das suas responsabilidades. Quer água de qualidade, lisa e cristalina, em quantidade suficiente para lhe suprir as necessidades diárias. Ele quer o problema resolvido, sem que seja necessário rebuscar culpados ou apontar sabotadores.

Quer que a Visan resolva. E rápido. Porque caso demore muito para a solução vir, pode ser que sua reação seja inesperada e, da mesma forma como hoje gritam “volta Casan”, pode entoar um “fora Visan”. Por isso, o momento é de serenidade. Acusações, suposições e achismos não vão contribuir para a calmaria dos ânimos, que certamente só serão saciados com o precioso líquido nas torneiras.

Ao que parece, o videirense também está exausto das justificativas provindas pelos comunicados oficiais da autarquia. O mais recente deles, dá conta que todo problema teria sido provocado pela abertura de um registro que provocou desvio da água e despressurização do sistema. Essa abertura teria sido feita de forma criminosa, por alguém que entende do metiê e já estaria sendo investigada pela polícia.

Mais do que culpados, a nota apontou a solução para o problema. Se é conforme alardeou, basta fechar o registro e retomar a pressurização, resolvendo em alguns breves dias toda situação. Caso isso não aconteça, cairá na conta da Visan mais uma desculpa e a pecha de emitir comunicados que pouco agregam para solução do abastecimento em todo município de Videira.

Visan Sempre Atrás

A Visan está sempre correndo atrás dos problemas e, até o momento, não conseguiu se adiantar às situações, prevenir o desabastecimento. Nem a conta de água ela está dando conta de entregar de forma correta. Neste mês, em algumas residências, ela chegou numa folha ofício, impressa em computador e quem não recebeu teve que ir até o escritório da autarquia, já que ela não conta com o serviço on-line.

Esta realidade parece que está longe do fim, situação que é admitida pelos seus gestores que repetidamente dizem ser necessário percorrer um longo caminho até a solução do problema. E neste caminho, serão necessários investimentos de significativa monta que, até agora, não se sabe se o município terá condições de suportar. Um dos desafios mais iminentes é a efetivação do tratamento do esgoto, que está em 0% por aqui.

Diz a gestão da Visan que as soluções estão sendo buscadas, os sistemas padronizados e todo trabalho de coleta, tratamento e distribuição estruturado. Alega, ainda, que o esforço é constante na tentativa de levar água até a população. A Visan ainda tem algum tempo pela frente, mas ele não é muito. Órgãos de defesa do cidadão e do consumidor estão sendo acionados com veemência e podem agir, num futuro breve.

Água é o básico. É o mínimo que se espera encontrar e, quando assumiu o sistema, a Visan sabia disso. Por isso, agora, quando é cobrada, inquirida ou citada, tem obrigação de responder à sociedade, que espera ansiosa pelo retorno da normalidade ao seu cotidiano. Mais do que isso, aguarda pela preciosa água em suas torneiras. Só ela lhe acalmará. Só ela encerrará essa novela.

 

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